Pesquisas Inconformadas

quarta-feira, março 25, 2009

terça-feira, março 24, 2009

"Confissão", Leila Míccolis

Leila Míccolis
 


Confissão

Dizem que o amor é cego,
não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches
por só comer sanduíches),
minha poesia é foleira,
tenho ideias de jerico,
um cio meio impúdico
como as cadelas e as gatas,
às vezes torno-me chata
por opôr-me ao que contemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo ser-te sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao ver-te, viro pamonha,
sem acção, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro... 

http://www.revista.agulha.nom.br/lmiccolis.html

quarta-feira, março 04, 2009

Um dia vou construir um castelo....

 

A felicidade exige valentia.
 

'Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não
esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, "um dia vou construir um castelo..."..... 
 

Fernando Pessoa - 120 anos


terça-feira, março 03, 2009

Nota biográfica

Nota biográfica

Na leitura do abismo e seus açores
Teci a minha vida, entre moinhos
Atirei-me à ventura dos caminhos
E neles cultivei as mores dores.

Jamais ultrapassei os domadores
De outra profissão senão de espinhos,
Não apurei o faro dos focinhos
Mas despertei o mito dos amores.

Embora da maldade dos tiranos
Compusesse uma ópera canina,
Eu tive a recompensa do teu ânus.

Tesão com castidade não combina
Nem fodas retardadas pelos anos:
Ser puto de mulher, eis minha sina.

 

HOLANDA, Gastão de

 

 

11/02/1919 – 1997, Recife

Escritor, poeta e editor, Gastão de Holanda formou-se em Direito no ano de 1951.

Em 1954 ganha o Prémio IV Centenário de São Paulo, com o romance "Os Escorpiões".
 
Em 1972 vai para o Rio de Janeiro, onde viveu até 1997.

Jovem integrante da vanguarda artística pernambucana, funda em 1954 – juntamente com Aloisio Magalhães, José Laurenio de Melo,Orlando da Costa Ferreira e Ariano Suassuna – O Gráfico Amador: pequeno atelier tipográfico que sonhava em transformar livros em objectos de arte. Com o início da ditadura militar, o grupo desfez-se.

Gastão é considerado um dos pioneiros do design gráfico brasileiro, porque além da experiência com "O Gráfico Amador", foi o primeiro a ter um escritório especializado na área em Pernambuco.

 Obras: "Zona do Silêncio" (contos), "O Atlas do Quarto" (poesia), entre outras.

segunda-feira, março 02, 2009

"Nua", Isabel Machado

Nua

Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...

http://www.isabelmachado.com/

Why Have Sex? Study Finds 237 Reasons - Porquê Fazer Sexo? Estudo descobre 237 razões

O texto abaixo está em inglês, mas ilustra claramente aquilo em que acredito já há muito tempo e que já tive ocasião de referir em conversas com amigos meus.

Se vivemos num mundo de homens, as mulheres arranjam maneiras de fazerem as coisas à maneira delas. Portanto se os homens querem casar com virgens, elas aparecem, mesmo que a "virgindade" seja fazer tudo, menos coito vaginal!

Apraz-me saber (aos que querem virgens, talvez nem tanto, he he!) que elas não são assim tão diferentes. É que a minha (pouca) experiência sempre me indicou que aquilo que elas dizem da boca para fora nem sempre bate certo com o que elas fazem. Mas para or virgin-seekers, os afectados sexualmente que temem, mais do que perder a sombra, serem comparados em termos de performance sexual, os que vivem com receio das críticas (serei, grande ou pequeno, grosso ou fino, ela finge ou atinge mesmo o clímax? - para aqueles que ainda tentam), é o que elas dizem, desde que seja a pés juntos e com a convicção da irmã Lúcia (mesmo que amplamente ensaiada -  digna de um óscar), que conta. E portanto estas mentirinhas "ai eu gosto é de um homem que me faça rir e que seja inteligente" para, depois de uma noite inteira a deliciar-se com as anedotas e as provocações bem colocadas, depois de n comentários inteligentes, depois de as ouvirmos incansavelmente, depois de dias de corte, jantares, de todas as amigas dela nos adorarem, depois de tudo isso, irem javardar com o janota de camisa aberta a mostrar os peitorais, barbinha feita ou de 2 dias, ou o impotente que a única forma que tem de seduzir é abrindo os cordões à bolsa (passeios em descapotáveis, fazer as vontadinhas todas - com dinheiro é muito mais fácil cortejar).

Portanto, dedico este post a todos aqueles que, como eu, não são nenhuma estampa de colocar em capa de revista, mas não têm nenhum problema em segurarem uma mulher pelas ancas e levá-la à loucura. Mas atenção, com camisinha... vejam a lista das razões menos indicadas...

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(CBS/AP) After exhaustively compiling a list of the 237 reasons why people have sex, researchers found that young men and women get intimate for mostly the same motivations.

It's more about lust in the body than a love connection in the heart.

College-aged men and women agree on their top reasons for having sex — they were attracted to the person, they wanted to experience physical pleasure and "it feels good," according to a peer-reviewed study in the August edition of Archives of Sexual Behavior. Twenty of the top 25 reasons given for having sex were the same for men and women.

Expressing love and showing affection were in the top 10 for both men and women, but they did take a back seat to the clear No. 1: "I was attracted to the person."

Researchers at the University of Texas spent five years and their own money to study the overlooked why behind sex while others were spending their time on the how.

"It's refuted a lot of gender stereotypes ... that men only want sex for the physical pleasure and women want love," said University of Texas clinical psychology professor Cindy Meston, the study's co-author. "That's not what I came up with in my findings."

"The number of ways people can use sex as manipulation and revenge and getting back at somebody and tricking somebody and deceiving somebody — that was pretty surprising," Meston told CBS News.

Forget thinking that men are from Mars and women from Venus, "the more we look, the more we find similarity," said Dr. Irwin Goldstein, director of sexual medicine at Alvarado Hospital in San Diego. Goldstein, who wasn't part of Meston's study, said the Texas research made a lot of sense and adds to growing evidence that the vaunted differences in the genders may only be among people with sexual problems.

Meston and colleague David Buss first questioned 444 men and women — ranging in age from 17 to 52 — to come up with a list of 237 distinct reasons people have sex. They ranged from "It's fun" which men ranked fourth and women ranked eighth to "I wanted to give someone else a sexually transmitted disease" which ranked on the bottom by women.

The latter "wasn't endorsed with high frequency, but nevertheless this is a pretty serious reason with a whole lot of negative social consequences," Meston told CBS News.

Once they came up with that long list, Meston and Buss asked 1,549 college students taking psychology classes to rank the reasons on a one-to-five scale on how they applied to their experiences.

"None of the gender differences are all that great," Meston said. "Men were more likely to be opportunistic towards having sex, so if sex were there and available they would jump on it, somewhat more so than women. Women were more likely to have sex because they felt they needed to please their partner."

But this is among college students, when Meston conceded "hormones run rampant." She predicted huge differences when older groups of people are studied.

Since her study came out Tuesday, people are coming up with new reasons to have sex.

"Originally, I thought that we exhaustively compiled the list, but now I found that there should be some added," Meston said.

Top 10 Reasons To Have Sex For Men
  • I was attracted to the person.
  • It feels good.
  • I wanted to experience physical pleasure.
  • It's fun.
  • I wanted to show my affection to the person.
  • I was sexually aroused and wanted the release.
  • I was "horny."
  • I wanted to express my love for the person.
  • I wanted to achieve an orgasm.
  • I wanted to please my partner.

Top 10 Reasons To Have Sex For Women
  • I was attracted to the person.
  • I wanted to experience physical pleasure.
  • It feels good.
  • I wanted to show my affection to the person.
  • I wanted to express my love for the person.
  • I was sexually aroused and wanted the release.
  • I was "horny."
  • It's fun.
  • I realized I was in love.
  • I was "in the heat of the moment."

Bottom Five Reasons To Have Sex For Men
  • The person offered to give me drugs for doing it.
  • I wanted to give someone else a sexually transmitted disease.
  • I wanted to punish myself.
  • I wanted to break up my relationship.
  • I wanted to get a job.

Bottom Five Reasons To Have Sex For Women
  • I wanted to give someone else a sexually transmitted disease.
  • Someone offered me money to do it.
  • I wanted to get a raise.
  • It was an initiation rite to a club or organization.
  • I wanted to get a job.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

A bela teta - Clément Marot

(literatura francesa da Renascença - século XVI)

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A bela teta

Teta mais branca do que um ovo,
Teta de cetim branco e novo,
Teta que faz inveja à rosa
E mais do que tudo é formosa,
Teta dura, nem teta, sim
Pequena bola de marfim,
Bem no meio da qual aflora,
Rubra, uma cereja ou amora,
Que, aposto com vossa mercê,
Ninguém apalpa, ninguém vê.
Teta de bico cor de sangue,
Teta que nada tem de langue
E, indo ou voltando, não balança,
Quer em corrida, quer em dança.
Teta esquerda, pequenininha,
Sempre distante da vizinha,
Teta que dás fiel imagem
Do restante da personagem,
Quem te vê, que tentação
De te conter dentro da mão
E comprimir-te e apalpar-te;
Mas é melhor deixar-se de artes
E não o fazer, pois prevejo
Que lhe viria outro desejo!
Teu bom tamanho não engana,
Teta madura que dás ganas,
Teta que um só anelo expressa:
"Casai comigo bem depressa!"
Teta que incha e quer ir além
Do corpete que ora a detém.
Oh! felizardo quem te encher
De leite para te fazer,
De ti que és teta de donzela,
Teta de mulher plena e bela.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

O poligrota

   'O POLIGROTA'

*É verdade matemática que ninguém pódi negá, **
que essa história de gramática só serve pra atrapaiá.
Inda vem língua estrangêra ajudá a compricá.
Meió nóis cabá cum isso pra todos podê falá.
 
Na Ingraterra ouví dizê que um pé de sapato é xu.
Desde logo já se vê, dois pé deve sê xuxu.
Xuxu pra nóis é um legume que cresce sorto no mato.
Os ingrêis lá que se arrume, mas nóis num come sapato.
 
Na Itália dizem até, eu não sei por que razão,
que como mantêga é burro, se passa burro no pão.
Desse jeito pra mim chega, sarve a vida no sertão,
onde mantêga é mantêga, burro é burro e pão é pão.
 
Na Argentina, veja ocêis, um saco é um paletó.
Se o gringo toma chuva tem que pô o saco no sór.
E se acaso o dito encóie, a muié diz o pió:
''Teu saco ficô piqueno, vê se arranja ôtro maió'...
 
Na América corpo é bódi. Veja que bódi vai dá.
Conheci uma americana doida pro bódi emprestá.
 Fiquei meio atrapaiado e disse pra me escapá:
 Ói, moça, eu não sou cabra, chega seu bódi pra lá!
 
Na Alemanha tudo é bundes. Bundesliga, bundesbão.
Muita bundes só confunde, disnorteia o coração.
Alemão qué inventá o que Deus criou primêro.
É pecado espaiá o que tem lugar certêro.
 
No Chile cueca é dança de balançá e rodá.
Lá se dança e baila cueca inté a noite acabá.
Mas se um dia um chileno vié pro Brasir dançá,
que tente mostrá a cueca pra vê onde vai pará.
 
Uma gravata isquisita um certo francês me deu.
Perguntei, onde se bota? E o danado respondeu.
Eu sou home confirmado, acho que num entendeu,
Seu francês mar educado, bota a gravata no seu!
 
Pra terminar eu confirmo, tem que se tê posição.
Ô nóis fala a nossa língua, ô num fala nada não.
O que num pode é um povo fazê papér de idiota,
dizendo tudo que é novo só pra falá poligrota... *
 

                                               * (Autor desconhecido)*

 

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Gritar baixinho

Há muito que não escrevo um original aqui... não por falta de inspiração, mas de tempo... tempus fugit.
 
Mas a escrita em mim é uma catarse, portanto aqui vai.
 
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Às vezes apetece-me gritar baixinho,
Tão forte, tão alto,
Que todo o mundo fica surdo de não me ouvir.
 
Tomar todas as decisões,
As certas e mesmo as erradas,
Para que nenhuma fique por decidir.
 
Faz-me falta o riso despreocupado
Daqueles que têm o peso do mundo nos ombros.
E a seriedade nervosa dos comediantes.
 
Dói-me o peito de tanto pensar,
Pesam-me as ideias para inovar,
Estou alerta para novos meios tradicionais.
 
Reajo, contraio-me, contrario-me até!
Avanço, pé ante pé.
E o meu corpo reaje num escarnecer.
 
Em tempos difíceis o fácil é desistir,
É acabar por não ir,
Encolher os ombros enquanto se abana a cabeça,
Não lembrar as coisas para que ninguém as esqueça.
 
A verdade não dói mais que o insistir na mentira.
Mas a mentira não tem culpa das ilusões que criamos em nós.
E a aposta no futuro é sempre a mais difícil de concretizar.

Mia couto: NOVOS RICOS

Se nunca leram um livro de Mia Couto, posso garantir que o investimento é seguro.
 
Estas linhas abaixo (2 textos) são relativas a Moçambique, mas ninguém diria... assim de soslaio 80 a 90% do que ele descreve podia ser cá...
 
Relativamente ao Jet7 recordo-me especialmente de uma "senhora" (que Senhora seria, se se portasse à altura da conta em que ela própria se atribui) de apelido Jardim (santanete) que, numa deslocação a uma empresa de telemóveis cuja sede é ali em Entrecampos, não esteve de meias medidas e estacionou o seu Alfa Romeu, ao invés de paralelo à faixa de rodagem, como os restantes, deve ter entendido que isso era demasiado vulgar para uma figura do "Jetesete" e deixou o "fiat" atravessado de tal forma que a roda dianteira direita estava no passeio (o que vale é que este era largo, mas não creio que ela tenha pensado nos transeuntes, a não ser em que ELES é que se deviam desviar do seu carro!) e a (roda) traseira esquerda estava no meio da faixa de rodagem, o que foi um excelente momento para testar a vivacidade de reflexos dos que circulavam na faixa direita da Av. Álvaro Pais (como se a cidade de Lisboa não fosse já rica em "testes surpresa" de todos os tipos). Note-se que naquela zona é uma curva larga, o que aumenta o grau de dificuldade (e portanto, o de destreza) dos automobilistas. Nessa mesma noite, não posso precisar, mas certamente na mesma semana foi vê-la na TV a comentar, junto com outros "notáveis" (uns, mais que outros - tê-la ao lado da Joana Lemos foi uma piada, certamente) a condução e a falta de civismo dos condutores portugueses... não reparei, mas de certeza que o "Fiat Premium" não trazia espelhos!


País dos dez por cento - Mia Couto

Havia um país em que tudo funcionava na base dos dez por cento.

Era o médico: - Mandas-me esse doente e eu pago-te 10%.

Era a criança de rua para um candidato a criança de rua: - Deixo-te guardar carros na minha área e dás-me 10 por cento.

Era o chefe: - Deixo a vossa empresa ganhar o concurso e vocês retribuem com 10 por cento.

Era o polícia: - Estou a telefonar para lembrar aquela multa que perdoei... recorde-se do combinado.

Era o director: - Coloquei-te no projecto como técnico... já sabes, não é?

Era o outro chefe em sussurro para o empresário estrangeiro: - Podem investir no nosso país mas... há comissões, é normal...

Tudo parecia correr bem, no país dos dez por cento. Na aparência, pelo menos... As pessoas trabalhavam a dez por cento, sonhavam nessa percentagem, viviam nessa escassa perspectiva. Tudo a dez por cento.

Mesmo a esperança a ser investida no futuro ocupava apenas uma fracção do coração.

Certo dia, porém, alguém pensou tomar uma iniciativa a 100 por cento. Meu dito, meu feito. O homem arregaçou as mangas e trabalhou.

E logo os amigos, familiares e colegas desataram a rir. Que o esforço seria em vão. Porque, nesse país, o construir era entendido como "comer". E ninguém pode "comer" sozinho. Viria o fiscal e pediria 10 por cento. Viria o camarário e pediria 10% para as licenças. Viria o ministerial e exigiria 10 por cento. Ou mais.

No final, ele acabaria por ficar com menos de 10 por cento das ideias, e do esforço aplicado resultaria quase nada. Que no país dos dez por cento o melhor é não fazer. O melhor é não construir, nem trabalhar. O que é bom e saudável é parasitar os que querem fazer. Sobretudo, os que querem fazer a cem por cento.

E assim, embora aparentando toda a normalidade, o país a dez por cento padecia de uma doença fatal. O problema é que um país a dez por cento só pode ser dez por cento país!

Mia Couto in Beco com saída - Revista mais

 

Receita para um "jet-set" nacional - Mia Couto

Já vimos que, não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça.

No nosso caso, a aparência é que faz a essência. Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".

O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais. O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante o próximo ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética:

Anéis - São imprescindíveis. Fazem parte da montra. O princípio é: quem tem boa aparência é bem aparentado. E quem tem bom parente está a meio caminho para passar dos anéis do senhor à categoria de Senhor dos Anéis O jet-setista nacional deve assemelhar-se a um verdadeiro Saturno, tais os anéis que rodeiam os seus dedos. A ideia é que quem passe nunca confunda o jet-setista com um magaíça*, um pobre, um coitado. Deve-se usar jóias do tipo matacão, ouros e pedras preciosas tão grandes que se poderiam chamar de penedos preciosos. A acompanhar a anelagem deve exibir-se um cordão de ouro, bem visível entre a camisa desabotoada.

Boas maneiras - Não se devem ter. Nem pensar. O bom estilo é agressivo, o arranhão, o grosseiro. Um tipo simpático, de modos afáveis e que se preocupa com os outros? Isso, só uma pessoa que necessita de aprovação da sociedade. O jet-setista nacional não precisa de aprovação de ninguém, já nasceu aprovado. Daí os seus ares de chefe, de gajo mandão, que olha o mundo inteiro com superioridade de patrão. Pára o carro no meio da estrada atrapalhando o trânsito, fura a bicha, passa à frente, pisa o cidadão anónimo. Onde os outros devem esperar, o jet-setista aproveita para exibir a sua condição de criatura especial. O jet-setista não espera: telefona. E manda. Quando não desmanda.

Cabelo - O nosso jet-setista anda a reboque das modas dos outros. O que vem dos americanos: isso é que é bom. Espreita a MTV e fica deleitado com uns moços cuja única tarefa na vida é fazer de conta que cantam. Os tipos são fantásticos, nesses video-clips: nunca se lhes viu ligação alguma com o trabalho, circulam com viaturas a abarrotar de miúdas descascadas. A vida é fácil para esses meninos. De onde lhes virá o sustento? Pois esses queridos fazem questão em rapar o cabelo à moda militar, para demonstrar a sua agressividade contra um mundo que os excluiu mas que, ao que parece, lhes abriu a porta para uns tantos luxos. E esses andam de cabelo rapado. Por enquanto.

Cerveja - A solidez do nosso matreco vem dos líquidos. O nosso candidato a jet-setista não simplesmente bebe. Ele tem de mostrar que bebe. Parece um reclame publicitário ambulante. Encontramos o nosso matreco de cerveja na mão em casa, na rua, no automóvel, na casa de banho. As obsessões do matreco nacional variam entre o copo e o corpo (os tipos ginasticam-se bem). Vazam copos e enchem os corpos (de musculaças). As garrafas ou latas vazias são deitadas para o meio da rua. Deitar a lata no depósito do lixo é uma coisa demasiado "educadinha". Boa educação é para os pobres. Bons modos são para quem trabalha. Porque a malta da pesada não precisa de maneiras. Precisa de gangs. Respeito? Isso o dinheiro não compra. Antes vale que os outros tenham medo.

Chapéu - É fundamental. Mas o verdadeiro jet-setista não usa chapéu quando todos os outros usam: ao sol. Eis a criatividade do matreco nacional: chapéu ele usa na sombra, no interior das viaturas e sob o tecto das casas. Deve ser um chapéu que dê nas vistas. Muito aconselhável é o chapéu de cowboy, à a Texana. Para mostrar a familiaridade do nosso matreco com a rudeza dos domadores de cavalos. Com os que põe o planeta na ordem. Na sua ordem.

Cultura - O jet-setista não lê, não vai ao teatro. A única coisa que ele lê são os rótulos de uísque. A única música que escuta são umas "rapadas e hip-hopadas" que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade. Os tipos da cultura são, no entender do matreco nacional, uns desgraçados que nunca ficarão ricos. O segredo é o seguinte: o jet-setista nem precisa de estudar. Nem de ter Curriculum Vitae. Para quê? Ele não vai concorrer, os concursos é que vão ter com ele. E para abrir portas basta-lhe o nome. O nome da família, entenda-se.

Carros - O matreco nacional fica maluquinho com viaturas de luxo. É quase uma tara sexual, uma espécie de droga legalmente autorizada. O carro não é para o nosso jet-setista um instrumento, um objecto. É uma divindade, um meio de afirmação. Se pudesse o matreco levava o automóvel para a cama. E, de facto, o sonho mais erótico do nosso jet-setista não é com uma Mercedes. É, com um Mercedes.

Fatos - Têm de ser de Itália. Para não correr o risco do investimento ser em vão, aconselha-se a usar o casaco com os rótulos de fora, não vá a origem da roupa passar despercebida. Um lencinho pode espreitar do bolso, a sugerir que outras coisas podem de lá sair.

Simplicidade - A simplicidade é um pecado mortal para a nossa matrecagem. Sobretudo, se se é filho de gente grande. Nesse caso, deve-se gastar à larga e mostrar que isso de país pobre é para os outros. Porque eles (os meninos de boas famílias) exibem mais ostentação que os filhos dos verdadeiros ricos dos países verdadeiramente ricos. Afinal, ficamos independentes para quê?

Óculos escuros - Essenciais, haja ou não haja claridade. O style - ou em português, o estilo - assim o exige. Devem ser usados em casa, no cinema, enfim, em tudo o que não bate o sol directo. O matreco deve dar a entender que há uma luz especial que lhe vem de dentro da cabeça. Essa a razão do chapéu, mesmo na maior obscuridade.

Telemóvel - Ui, ui, ui! O celular ou telemóvel já faz parte do braço do matreco, é a sua mais superior extremidade inferior. A marca, o modelo, as luzinhas que acendem, os brilhantes, tudo isso conta. Mas importa, sobretudo, que o toque do celular seja audível a mais de 200 metros. Quem disse que o jet-setista não tem relação com a música clássica? Volume no máximo, pelo aparelho passam os mais cultos trechos: Fur Elise   de  Beethoven,a  Rapsódia Húngara de Franz Liszt, o Danúbio Azul de Strauss. No entanto, a melodia mais adequada para as condições higiénicas de Maputo é o Voo do Moscardo. Última sugestão: nunca desligue o telemóvel! O que em outro lugar é uma prova de boa educação pode, em Moçambique, ser interpretado como um sinal de fraqueza. Em Conselho de Ministros, na confissão da Igreja, no funeral do avô: mostre que nada é mais importante que as suas inadiáveis comunicações. Você é que é o centro do universo!